ano 1 Edição “pegando pesado’
ano XII – nº 133 – outubro – 2012
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poesia. joão de abreu
borges
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O Rio de Janeiro
continua...
Nossa cidade
nunca foi destruída
Por bombas
nazistas
Por bambinos
(Mussolini)
Por bumbos
integralistas
Por bambus
japoneses...
Nunca nossa
cidade foi reconstruída
Por vaidosos
alemães engalanados em si mesmos
Por românticos
italianos bem intencionados
Por
desmemoriados integralistas
Por japoneses
soterrados em si mesmos...
Nossa cidade é
bela
Como a luz de
seus dias nas montanhas altas
(e as favelas
de suas montanhas altas)
Como a paz
líquida de sua orla marítima.
(e a mata
atlântica já morta)
Derramando
suas últimas gotas de seiva sobre o mar...
Nossa cidade
exige caminhos
Mas os homens
já não sabem caminhar...
O Rio de
Janeiro é uma cidade
Onde já não há
gregos, romanos,
europeus ou
norte-americanos,
Apenas o que
fomos índios,
Nós que não
somos o que fomos,
porque aqui
estamos
e aqui já não
vivemos.
Apenas
gritamos da terceira margem,
Onde nem rios há mais...
Que terceira
margem?
Que rios?
Basta um
emprego público,
Uma família
com carro na garagem,
Um diploma de
“falcudade”,
Uma desculpa
qualquer ao vizinho,
E tudo será
sempre assim:
Corcovado,
Pão de Açúcar,
Ipanema,
Copacabana...
Mas ninguém há
de querer tirar o chinelo
e queimar os
pés no chão...
Esse chão
negro, histórico, carioca,
moreno,
iconográfico,
Sem
professores e sem médicos.
Com a triste
alegria dos que passam
alheios aos
cadáveres
Sobre os quais
dançam sua glória e hegemonia.
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SÉRIE “GAMBOA-RJ” –
Imagem nº 3
“Quéops”, “Quéfren” e “Miquerinos”,
as três pirâmides egípcias, aparições
da Gamboa, em frente à minha janela,
e acima do telhado do vizinho,
abaixo do Morro da Conceição,
positivamente assombram
pela coragem da nitidez de suas
entranhas expostas nas paredes.
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prosa. joão de abreu
borges
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Camelô
A poesia nos
leva a caminhos que, por mais que possamos tentar imaginá-la, jamais poderemos
ter plena certeza de como se apresentará como imagem (concreta ou abstrata).
Às vezes (não
poucas...), escrevemos correndo e de forma embaralhada dentro de um ônibus, espaço sólido e móvel
que delimita nossa atuação.
Às vezes (não
tão raras, também...), um poema se sobrepõe a nossos simples pensamentos e
espalha a angústia de não ver nada em volta que combine com ele, que lhe faça
companhia do ponto de vista estético e filosófico.
Às vezes
(muito menos difíceis de encontrar...), a poesia é ação, quando se lança à
nossa frente antes mesmo de nosso primeiro passo, quando alcança nosso olhar
(de dentro pra fora ou de fora pra dentro) e dá-lhe um brilho incontestável de
ponta de estrela ou ponta de faca.
Às vezes
(muitas vezes, por sinal...), em lugares inadequados como um ambiente do
trabalho, temos de escrever em cima da perna e embaixo da mesa, para que sua
objetividade interior não seja confundida com a objetividade exterior de uma
pasta de trabalho protocolar.
Às vezes, vem
uma ditadura (qualquer ditadura...) e fere tão profundamente que, das entranhas
de nossa carne e dos mistérios de nossa alma, nasce um novo ser revitalizado
por uma morte aparente.
Às vezes...
“Olha o rapa!”
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