domingo, 21 de outubro de 2012


ano 1    Edição “pegando pesado’

ano XII – nº 133 – outubro – 2012

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poesia. joão de abreu borges
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O Rio de Janeiro continua...

Nossa cidade nunca foi destruída
Por bombas nazistas
Por bambinos (Mussolini)
Por bumbos integralistas
Por bambus japoneses...

Nunca nossa cidade foi reconstruída
Por vaidosos alemães engalanados em si mesmos
Por românticos italianos bem intencionados
Por desmemoriados integralistas
Por japoneses soterrados em si mesmos...

Nossa cidade é bela
Como a luz de seus dias nas montanhas altas
(e as favelas de suas montanhas altas)
Como a paz líquida de sua orla marítima.
(e a mata atlântica já morta)
Derramando suas últimas gotas de seiva sobre o mar...

Nossa cidade exige caminhos
Mas os homens já não sabem caminhar...

O Rio de Janeiro é uma cidade
Onde já não há gregos, romanos,
europeus ou norte-americanos,
Apenas o que fomos índios,
Nós que não somos o que fomos,
porque aqui estamos
e aqui já não vivemos.

Apenas gritamos da terceira margem,
Onde nem rios há mais...
Que terceira margem?
Que rios?

Basta um emprego público,
Uma família com carro na garagem,
Um diploma de “falcudade”,
Uma desculpa qualquer ao vizinho,
E tudo será sempre assim:

Corcovado,
Pão de Açúcar,
Ipanema,
Copacabana...

Mas ninguém há de querer tirar o chinelo
e queimar os pés no chão...
Esse chão negro, histórico, carioca,
moreno, iconográfico,
Sem professores e sem médicos.

Com a triste alegria dos que passam
alheios aos cadáveres
Sobre os quais dançam sua glória e hegemonia.

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SÉRIE “GAMBOA-RJ” – Imagem nº 3



“Quéops”, “Quéfren” e “Miquerinos”,
as três pirâmides egípcias, aparições
da Gamboa, em frente à minha janela,
e acima do telhado do vizinho,
abaixo do Morro da Conceição,
positivamente assombram
pela coragem da nitidez de suas
entranhas expostas nas paredes.



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prosa. joão de abreu borges
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Camelô

A poesia nos leva a caminhos que, por mais que possamos tentar imaginá-la, jamais poderemos ter plena certeza de como se apresentará como imagem (concreta ou abstrata).

Às vezes (não poucas...), escrevemos correndo e de forma embaralhada  dentro de um ônibus, espaço sólido e móvel que delimita nossa atuação.

Às vezes (não tão raras, também...), um poema se sobrepõe a nossos simples pensamentos e espalha a angústia de não ver nada em volta que combine com ele, que lhe faça companhia do ponto de vista estético e filosófico.

Às vezes (muito menos difíceis de encontrar...), a poesia é ação, quando se lança à nossa frente antes mesmo de nosso primeiro passo, quando alcança nosso olhar (de dentro pra fora ou de fora pra dentro) e dá-lhe um brilho incontestável de ponta de estrela ou ponta de faca.

Às vezes (muitas vezes, por sinal...), em lugares inadequados como um ambiente do trabalho, temos de escrever em cima da perna e embaixo da mesa, para que sua objetividade interior não seja confundida com a objetividade exterior de uma pasta de trabalho protocolar.

Às vezes, vem uma ditadura (qualquer ditadura...) e fere tão profundamente que, das entranhas de nossa carne e dos mistérios de nossa alma, nasce um novo ser revitalizado por uma morte aparente.

Às vezes... “Olha o rapa!


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