ano 1
ano XII – nº
130 – julho de 2012
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poesia - joão de abreu borges
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O amor é o mar
Mostra o seu rosto na face do mar
Em tantas e plenas noites escuras
Os olhos vermelhos, espelhos do Sul
Emprestando o seu nome pras luas
Refletindo estrelas boas (não belas)
Lá onde mora
É mais do que duas
São todas tão tolas
Estão nuas
E ela grita aflita a flor da quimera
Na voz da aventura
Águas e peixes se expandem ao sol
Em pecado é a mais pura
Cantando em versos a roda do mundo
Planeta de espuma
É o som da fúria
De volta ao umbigo
Sem mágoa nenhuma
Eis o mar, doce mar
Veneno balanço que vai
Quando vem me afogar, me afagar
A Terra é azul
porque a vida veio do mar!
“O
medo de amar é o medo de ser livre”
(trecho da
música de Beto Guedes e Fernando Brant)
Sim, agora talvez não fosse a hora de eu escrever sobre certas coisas
verdadeiras demais, brilhantes em excesso ou simplesmente claras a um palmo de
nosso nariz. Estou trabalhando em outras coisas, que não literatura, mas tenho
de parar tudo e começar a colocar pra fora o que estou sentindo, enquanto ouço
a voz transcendental de Emílio Santiago (transcende ao próprio samba, à própria
bossa-nova, aos ritmos mais conhecidos no atual estágio da humanidade.).
Refiro-me no início do parágrafo anterior ao medo de ser belo, ao medo
de sentir a beleza e à vontade de “pousá-la sobre o colo”, como diria Rimbaud,
mal e pobremente traduzido agora por mim.
A causa deste medo já está implícita no verso de Fernando Brant, que dá
título a esta crônica, não há o que discutir diante de tamanha constatação,
muito bem colocada pelo poeta mineiro, língua das mais afiadas do famoso e
querido Clube da Esquina.
Será o mundo tão feio e violento que a gente chega a se perder, quando
pensamos em abrir nosso coração e colocar pra fora toda beleza que temos dentro
de nós?
Ou será que não somos tão belos assim, e sentimos medo de que descubram
o quanto temos de desagradável dentro de nós?
Pelo sim, pelo não, ficamos com a primeira pergunta, e imediatamente
reluzimos a resposta merecida: temos que nos manter ligados à antena do mundo e
procurar aceitar o Sol como uma proposta viva de encontro incondicional, sem
perspectivas ingênuas pós-fronteiras.
Ao atravessarmos a linha tênue entre nós-eu e nós-mundo, é preciso
preparar-se para o parto, para a saída do casulo, para o mergulho no fundo do
oceano ou no ar. A beleza é viva e inevitável como o ar que respiramos, porém
precisamos ter cuidado com a poluição...
