ano XII - nº 129 - junho - 2012
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ANO 1 ESTÁ FECHANDO MAIS UM CICLO...
TALVEZ, AGORA NO MÊS DE JULHO
RECOMECE A PUBLICAR TUDO DE NOVO
A PARTIR DE SEU Nº 1 DE 12 ANOS ATRÁS...
VEJAMOS...
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poesia _________________________ joão de abreu borges
Pergunto eu...
Dizem
que sou sábio
Mas que
sei eu de sabedoria
Se nem
em minha fantasia
Consigo
erguer um abraço na imensidão?
Dizem
que sou manso
Mas que
posso eu, embriaguez,
Espalhar
pela minha tez
A voz
serena de uma guerra em tensão?
Dizem
que sou fera
Mas que
sinto eu, mera forma animal,
Se nem
acima do bem e do mal
Consigo
caçar meu ego e dar-lhe razão?
Dizem
que sou simples
Mas que
faço eu da minha vida
Se fico
atrás na hora da partida
Ou se
avanço na frente parado na estação?
Dizem
que sou franco
Mas que
digo eu quando só minto
Não sinto
fome, embora tão faminto,
E, com
fome, me alimento de inanição?
Dizem que
não sou nada
Mas como
posso acreditar em tudo
Se quando
canto, acabo quieto e mudo
E, em
silêncio, do Universo roubo a canção?
Dizem
que não tenho estudo
Mas como
posso adquirir conhecimento
Se não
compreender meu próprio tormento,
E, em
desencanto, me encante com devoção.
Dizem
que ainda não estou curado
Mas como
posso entender de loucura
Se não
cultivar a alma mais pura
E, em
sonho maldito, ver o verso escrito na mão?
prosa _________________________ joão de abreu borges
Flora de Eva
Quando
ela arremessou o olhar, as horas começaram a se transformar em momentos
agradáveis e circulavam pela loja como crianças crescendo rapidamente e se
tornando adultos mais do que maliciosos: as horas eram morenas, cabelos como
crina de cavalo ao vento e cílios como arbustos remexidos por lembranças cada
vez mais recentes.
No setor
de frutas, bem abaixo da parreira do olhar de Eva – a atendente da loja que
mais se aproximava da exata expressão humana feminina –, eu permeava de calor
as líquidas mangas, voluptuosas mangas que exalavam um ardor úmido de desejo e
cumplicidade.
As
mangas, bem junto ao meu ventre, deixavam-na cada vez mais amarelando em fibras
cada momento de um sorriso flutuando em sua face. As mangas, mesmo fora da
promoção da loja, chegavam à minha língua pelo odor feminino do vapor da pele
berrante de minha caça.
Eu acreditava piamente que a
morte tinha sentido absoluto, mas em nossa vida relativa era melhor mesmo
acreditar na existência de uma espiritualidade sã, pelo menos diante de Eva,
que sempre me levava a reflexões para o outro lado de lá.
Pecado ou não, a questão é
que a morte é natural e o que nos assusta nela é justamente o artifício de nos
crer eterno, principalmente quando beijamos as maçãs de Eva ou desertamos de
sua salinidade.
Na loja, tudo isso que penso
agora escoa pelo chão, tal como as laranjas que o doce vizinho deixou cair e
que abusaram de sua condição de esfera circundando meus passos como se meus
passos fossem pétalas de algodão.
Os meus dedos contornaram as
curvas de um mamão, enquanto ela – Eva, a vida – se inclinava para pegar algo
no chão e sua curta saia ascendia em seu corpo como as vestes expostas de um vegetal,
a casca de seu corpo, a luz de entre as suas pernas.
Eu mal podia acreditar que
naquela dia, naquela loja, naquele eu que estava sendo ali, habitava um
hortidesejo monumental, precioso ao coração tanto mais puro, quanto mais
cafajeste.
Não havia bem e mal
enlutando-se mutuamente; havia o desejo interrompendo fronteiras, explodindo
horizontes...
Senti os pelos de um pêssego
querendo mais de meu toque, arrepiando-se por sobre a cabeça de Eva,
permitindo-se ao meu carinho, permeando-se ao meu desejo, e bastaria apenas um
deus do mundo aparecendo ali e eu e ela seríamos deuses também, mas deuses
daqueles que não temem nem são temidos, deuses de si mesmos, aparentando
velhice para no fundo brincarem sem compromisso nenhum com a vida ou a morte,
gozando eternidades apenas.
A rudeza do inhame, raiz
profunda da vida, com sua grossa superfície peluda, entre as minhas pernas alimentava-se
da sutileza de algo erétil, cuja função orgânica é movida pela partícula
anímica que ergue túmulos, berços, ânus, pênis...
Depois de cozido, o inhame
flutua na boca, os seios dela também flutuam, seu olhar ainda tímido também
ferve... e tudo se faz segredo desvendado entre dois legumes, duas verduras,
duas frutas... em uma só existência.

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